Psilocibina, o cogumelo, e Terence McKenna

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A psilocibina é uma triptamina psicodélica encontrada em aproximadamente 200 tipos de cogumelos no mundo todo. Em um workshop de 1998 de título “O Vale da Novidade”, Terence McKenna a chamou de “a forma fosforilada do DMT” e observou que tanto a psilocibina quanto o DMT “particularmente pareciam afetar as porções do cérebro responsáveis pela formação da linguagem, e isso produz estados mentais realmente bizarros, pois é a sua porção de formação de linguagem que está explicando a cada momento o que está acontecendo.” Para McKenna, a psilocibina providenciava “o mesmo confronto com uma inteligência alienígena e complexos translinguísticos de informação extremamente bizarros” quanto o DMT.

O cogumelo que continha psilocibina mais estudado e discutido por McKenna, Stropharia cubensis (foi reclassificado como Psilocybe cubensis), se apresentou para ele quando tinha apenas 10 anos de idade, em uma reportagem chamada “Procurando o Cogumelo Mágico”, publicada em 13 de maio de 1957 na revista LIFE. O irmão de Terence, Dennis, com 6 anos na época, escreveu em “A Irmandade do Abismo Gritante” (2012) que ele lembra de seu irmão “seguindo nossa mãe enquanto ela fazia o trabalho de casa, chacoalhando a revista e exigindo saber mais. Mas claro, ela não tinha nada a acrescentar.”

Catorze anos depois, McKenna estava na Amazônia colombiana com Dennis e 3 amigos procurando por uma misteriosa bebida de plantas que continha DMT chamada oo-koo-hé. Ao invés disso, em La Chorrera, eles encontraram (e consumiram) Stropharia cubensis, ou como McKenna posteriormente o chamou, “o cogumelo mágico nascido das estrelas”. Em Alucinações Reais (1993) McKenna escreveu:

“Eu nunca tinha tomado psilocibina antes e fiquei impressionado com o contraste com o LSD, que parecia mais abrasivamente psicoanalítico e social. Em contraste, os cogumelos pareciam tão cheios de energia de energia élfica feliz que chegar num trance visionário era o mais interessante.”

A Psilocibina, McKenna descobriu, o permitiu dialogar com uma entidade aparentemente alienígena que ele chamou, entre outros nomes, de “o cogumelo”, “a voz que ensina” e “os Logos”. Durante o workshop de 1998 mencionado acima, McKenna explicou:

“Psilocibina e DMT invocam o Logos, apesar do DMT ser mais intenso e curto na sua duração. Isso significa que eles trabalham diretamente nos centros de linguagem do cérebro, então um aspecto importante da experiência é o diálogo interior. Assim que alguém descobre isso sobre a psilocibina e sobre triptaminas em geral, essa pessoa deve decidir se quer ou não entrar no diálogo e tentar entender o sinal que está vindo. É isso que eu tentei.”

McKenna trouxe esporos do cogumelo pra América e, com seu irmão, aprendeu a cultivá-lo. “Desde a primavera de 1975 eu não estive sem um suprimento contínuo de Stropharia”, ele escreveu em “Alucinações Reais”. Naquela primavera e verão, ele comeu Stropharia “em doses de 5 gramas secos” uma vez a cada duas semanas. De todas as experiências ele escreveu:
“O cogumelo sempre retornava ao tema de que ele era esperto em termos de evolução e então solidário para a união simbiótica ao que ele referiu como ‘seres humanos’.”

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The McKenna brothers published their mushroom-growing guide using the pseudonyms O.T. Oss and O.N. Oeric. Also shown are audiobook/foreign editions of ‘Food of the Gods’ (1992).

Psilocibina: O Guia de Cultivo para Cogumelos Mágicos (1976)

Em 1976 os irmãos McKenna publicaram um livro que fornecia “instruções precisas e sem falhas para cultivar e preservar o cogumelo mágico” – Stropharia cubensis – “não só um dos mais fortes cogumelos alucinógenos, mas também um dos mais difundidos e disponíveis. Psilocibina: O Guia de Cultivo para Cogumelos Mágicos, que era do tamanho de uma coleção moderna de poesia, começa com um prefácio de 3 páginas explicando que, apesar dos métodos no livro serem científicos, “nossas opiniões sobre Stropharia cubensis não são.” As páginas continuam:

“Nossa opinião no assunto não deriva da opinião de outros nem de nada escrito em qualquer livro, ao invés disso se baseia na experiência de tomar 5 gramas secas desse cogumelo; nesse nível um fenômeno peculiar ocorre. É o surgimento de uma relação Eu-Tu entre a pessoa que toma a psilocibina e o estado mental que ela induz . Jung chamou isso de ‘transferência’ e é uma condição necessária dos primeiros homens primitivos e suas relações com seus deuses e demônios. O cogumelo fala, e nossas opiniões são formadas pelo que ele diz eloquentemente de si próprio na noite fresca da mente.”

O prefácio então citou integralmente o cogumelo. A citação, que McKenna disse em “A Sintaxe do Tempo Psicodélico” (1993) foi uma “transcrição direta”, e que ele descreveu como “as reivindicações do cogumelo” em Alucinações Reais – incluindo esses excertos:

“Sou velho, mais velho que o pensamento na sua espécie, que é por si próprio 50 vezes mais velho que sua história. Apesar de estar na Terra por um grande tempo, eu venho das estrelas. Meu lar não é um planeta, já que muitos mundos espalhados pelo disco brilhante da galáxia têm condições que permitem a sobrevivência dos meus esporos. O cogumelo que você vê é a parte do meu corpo dada pra aventuras sexuais e banhos de sol, meu corpo verdadeiro é uma sofisticada rede de fibras crescendo no solo. Essas redes podem cobrir acres de terra e podem possuir mais conexões que as que existem no cérebro humano.”

“O espaço, veja bem, é um vasto oceano para as formas de vida que tem a habilidade de se reproduzir por esporos, já que os esporos são cobertos com a substância orgânica mais resistente que se é conhecida. Através da eternidade do tempo e espaço existem muitas formas de vida formadoras de esporos à deriva, em animação suspensa, por milhões de anos até que ocorra o contato com um ambiente propício.”

“Simbiose é uma relação de mútua dependência e benefícios positivos para ambas espécies envolvidas. A relação simbiótica entre eu e formas civilizadas de animais superiores foi estabelecida muitas vezes e em muitos lugares ao longo do vasto tempo de meu desenvolvimento.”

Uma cronologia dos cogumelos com Psilocibina

Psilocibina: O Guia de Cultivo para Cogumelos Mágicos, que em 1981 já tinha vendido “mais de cem mil cópias”, de acordo com uma edição posterior, conclui com uma seção de nome “Uma Cronologia dos Cogumelos com Psilocibina” – uma lista de observações arranjadas em 37 datas, desde 3500 a.C. até 1984, incluindo:

– c. 3500 a.C: Pinturas de xamãs dançando e segurando cogumelos na presença de vacas brancas foram feitas na superfície de pedras do Tassili Plateau, sudeste da Algeria.

– c. 1100 – 400 a.C: Rituais de iniciação chamados mistérios Eleusinos usavam trigo contaminado com ergot ou cogumelos contendo psilocibina para focar nas aspirações místicas do Mundo Antigo.

– 1502: Cogumelos com psilocibina foram servidos na festa de coroação de Moctezuma II e foram usados recreacionalmente.

– 1958: Dr. Albert Hoffman, um químico da Sandoz de Basel, Suíça, isolou dois agentes ativos e deu a eles o nome de psilocibina e psilobina, já devido ao gênero Psilocybe.

– 1975: Oss e Oeric (nesse volume) bravamente arriscaram parecer ridículos ao serem os primeiros a sugerir a origem extraterrestre de Stropharia cubensis.

 

Teoria do Símio Chapado

Em 1992 McKenna publicou O Alimento dos Deuses, que, entre outras coisas, discutia a Teoria do Símio Chapado, expandindo a história da psilocibina de um contexto temporal de 6000 anos, como mostrado acima, para pelo menos 100 mil anos em termos de Stropharia e possivelmente mais de 1 milhão de anos em termos de cogumelos que contenham psilocibina em geral. A teoria cuidadosamente, de uma forma densa e elegante, sugere que os compostos psicodélicos presentes naturalmente – especificamente a psilocibina – “tiveram um papel decisivo na emergência da nossa humanidade essencial, a característica humana de auto-reflexão.”

A teoria observa que, em pequenas doses, a psilocibina melhora a acuidade visual, especialmente a detecção de bordas. Em doses altas, existe uma estimulação do SNC (Sistema Nervoso Central), e portanto uma estimulação sexual. Em doses maiores ainda, existe a dissolução de barreiras levando a orgias, e ainda existe uma certa capacidade de falar em línguas desconhecidas. “Nossa habilidade de formação de linguagem”, McKenna escreve, “pode ter se tornado ativa através da influência mutagênica de alucinógenos trabalhando diretamente em organelas que estão preocupadas em processar e gerar sinais.”

Os cogumelos como extraterrestres

A ideia que Stropharia não se originou na Terra foi proposta logo no início da carreira de McKenna, no prefácio de Psilocibina: O Guia de Cultivo para Cogumelos Mágicos (1976), mas McKenna continou a sugerir e escrever isso – tanto brincando quanto falando sério, pungentemente – por toda a vida. “Uma das razões que me fazem gostar de utilizar esse argumento sobre o cogumelo e o extraterrestre é pra mostrar às pessoas como alguém pode pensar diferente.” Ele disse, como você pode relembrar pelos memes de Terence McKenna.

Por continuar a falar, pensar e escrever sobre o cogumelo e o extraterreste – um tópico multidisciplinar envolvendo, entre outros assuntos, evolução, nanotecnologia, biologia, botânica, química, química, psicologia, linguagem, narrativa, o eu, o outro, o outro dentro do eu, história mundial, ficção científica, cência espacial – McKenna aumentou a história da psilocibina de 1 milhão de anos para pelo menos 1 bilhão de anos, um aumento na grandeza de 1000. “Eu penso que é possível que certos compostos desses possam ser “genes semente” injetados nos eons ecológicos planetários por uma sonda espacial automatizada, vinda de uma civilização em algum outro lugar da galáxia.” McKenna escreveu em Alucinações Reais. Ele elaborou:

“Espécies que vagam pelas estrelas pode se presumir que possuam um sofisticado conhecimento de genética e funcionamento do DNA e portanto não seria necessário que possuíssem a forma que a evolução em um planeta nativo os deu. Eles bem que podem se parecer do jeito que querem. O cogumelo, com seu hábito de sobreviver por matéria orgânica não-viva e sua rede frágil como teia de aranha de micélio efêmero embaixo da terra, parece um organismo planejado com valores budistas de não-interferência e baixo impacto ambiental.”

De O Renascimento Arcaico:

“O maior problema em procurar extraterrestes é reconhecê-los. O tempo é tão vasto e as estratégias evolutivas e ambientes tão variados que o truque é saber se o contato está de fato sendo feito. O cogumelo Stropharia cubensis, se alguém conseguir acreditar o que ele diz em um de seus humores, é simbionte, e ele deseja uma simbiose ainda mais profunda com a espécie humana. Ele atingiu simbiose com a sociedade humana logo no início por se associar com gado domesticado e a partir deles com homens nômades. Assim como as plantas e animais que homens e mulheres cuidaram, o cogumelo conseguiu se inserir na família humana, para que os humanos carregassem consigo não somente genes humanos mas também esses outros genes.”

E, dois parágrafos depois:

“A pessoa deve balancear essas explicações. Agora vou parecer que não acredito que o cogumelo seja extraterrestre. Pelo contrário, isso pode ser algo que recentemente tenho suspeitado – que a alma humana é tão alienada de nós pela nossa cultura que os tratamos como extraterrestres. Para nós, a coisa mais alienígena do cosmos é a alma humana. Alienígenas estilo Hollywood poderiam chegar na Terra amanhã que o transe do DMT continuaria a ser algo estranho e continuaria a carregar mais promessas de informação útil para o futuro humano. É tão intenso assim.”

Algumas coisas que o cogumelo disse a Mckenna:

McKenna, desde 1971 até o fim de sua vida em 2000, esboçou e compartilhou um bilhão de anos da possível história do cogumelo com “os seres humanos” por meio de livros e palestras. Em um retorno possivelmente gracioso, alguém pode dizer, o cogumelo permitiu a McKenna se envolver em um diálogo – a única condição era que ele ingerisse 5 gramas secos, preferencialmente sozinho em um lugar escuro e silencioso. “Eu não necessariamente acredito no que os cogumelos me dizem; ao invés, temos um diálogo” McKenna escreveu em O Renascimento Arcaico. Abaixo são algumas amostras do grande alcance das coisas que o cogumelo disse a McKenna:

  1. “Você é um cogumelo, você vive sem muitos custos.”

McKenna disse, em Novos Mapas do Hiperespaço, que ele uma vez perguntou ao cogumelo “o que você faz na Terra?” O cogumelo respondeu: “Ouça, se você é um cogumelo, você vive sem muitos custos; além disso, estou te dizendo, essa era uma vizinhança boa até que os macacos ficaram fora de controle.”

  1. “Se você não tem um plano, você se torna parte do plano de outras pessoas.”
  2. “Ninguém sabe nada do que está acontecendo.”
  3. “A natureza adora coragem.”
  4. Como salvar o mundo

Em O Vale da Novidade, McKenna diz que uma vez alguém o desafiou a perguntar ao cogumelo como salvar o mundo. A próxima vez que ele tomou os cogumelos ele perguntou, e o cogumelo, “sem hesitar por um momento”, respondeu “cada pessoa deve ter filhos somente uma vez.” McKenna observou:

“Essa é uma ideia surpreendente. Não é zerar o crescimento populacional, isso é diminuir em 50% a população a cada 20 anos. Se as pessoas de democracias industriais com alta tecnologia se limitassem a uma criança, quase imediatamente a destruição dos ecossistemas e recursos da Terra cessariam. Nós pregamos controle populacional no terceiro mundo, mas as estatísticas mostram que quando uma mulher de primeiro mundo tem um filho, esse filho irá consumir entre 800 a 1000 vezes mais recursos em sua vida o que uma criança nascida em Bangladesh, ou outro local de terceiro mundo.”

  1. Teoria Timewave

Em termos do impacto do trabalho de McKenna, esse foi provavelmente o ensinamento mais importante do cogumelo. McKenna elaborou os aspectos dessa teoria em Alucinações Reais:

“Os tempos estão relacionados consigo mesmos – as coisas acontecem por uma razão e não é uma razão casual. Ressonância, o misterioso fenômeno em que uma corda vibrante parece magicamente invocar uma vibração semelhante em outra corda ou objeto que está desconectado fisicamente, se sugeriu como um modelo para a propriedade misteriosa que relaciona um tempo à outro apesar de poderem estar separados por dias, anos, ou até milênios. Eu me convenci que existe uma onda, um sistema de ressonâncias, que as condições acontecem em todos os níveis. Essa onda é fractal e auto-referencial , assim como muitas das mais interessantes novas curvas e objetos sendo descritos nas barreiras da pesquisa matemática. Essa onda eletromagnética (timewave) é expressa através do universo em um número de níveis extremamente discretos. Ela causa que átomos sejam átomos, células sejam células, mentes sejam mentes, e estrelas sejam estrelas.”

Mas o cogumelo não contou tudo – até mesmo nada – que ele queria saber. Em Novos Mapas do Hiperespaço, McKenna descreveu seu relacionamento com o cogumelo:

“As vezes é bem humano. Minha aproximação a isso é Hassídica. Eu deliro à ele, ele delira à mim. Nós discutimos sobre o que será expelido de repente e o que não será. Eu digo ‘bem, olhe, eu sou o propagador, você não pode deixar de me mostrar coisas’, e ele diz ‘mas se eu mostrasse um disco voador por 5 minutos, você descobriria como funciona’, e eu digo ‘bem, vamos lá’. Ele tem muitas manifestações. As vezes é como Dorothy de Oz; as vezes é como um tipo de penhorista extremamente detalhista.”

As coisas que o cogumelo não disse a McKenna incluem o que acontece com a consciência humana após a morte biológica (“O Logos não quer ajudar aqui”) e o que ele realmente é por si só. McKenna explicou posteriormente em “Voz do Cogumelo”:

“A coisa mais assustadora pra dizer para ele é ‘me mostre o que você realmente é por si só’. Nesse ponto, ele começa a se mostrar, e você não consegue suportar. Após 40 segundos você diz ‘desculpe por perguntar’. Sabe, certifique-me, pois você tem um senso, meu deus, essa coisa é o que parece ser. É uma inteligência galáctica. Tem bilhões de anos de existência. Tocou 10 milhões de mundos. Ele sabe a história de 150 mil civilizações.”

O tópico da próxima semana será Cannabis. “Meu interesse na Cannabis é intenso e pra vida toda, devo dizer” McKenna disse em “Triálogo da Cannabis” em 1991, chamando-a de “um assunto que interessa um vasto número de pessoas, apesar de ser pouco discutido e de fato parece ter ganhado o status de tabu na sociedade civilizada.”

livros que amo muito

Livros do Mckena foram publicados aqui no Brasil, todos pela Editora NOVA ERA. Hoje em dia é raridade encontrar um deles em algum sebo. Mas temos estes três para você baixar e ler em casa. Não deixe de entrar em nossa Biblioteca Virtual


 

FONTE VICE

Agradecemos imensamente a tradução feita pela colaboradora Raphaela Lancellotti.
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