Tornar-se o Que Se É (Becoming What We Are)

Seguindo com as traduções, aí vai um texto essencial do R.A.W.

Tornar-se o Que Se É (Becoming What We Are)

por Robert Anton Wilson


Se você passear por um grande museu de arte, perceberá que Van Gogh não pinta o mesmo mundo de Rembrandt, Picasso não vê as coisas do mesmo modo que Goya, Georgia O’Keefe não lembra muito Rivera, Salvador Dali não se parece com ninguém que não seja ele mesmo, e em geral, nenhum artista de renome mundial se tornou um “clássico” fazendo o que alguém já tinha feito sequer o que todo mundo em sua época fazia.

E na ciência, os nomes de Einstein, Dirac, os Curies, Bohr, Heisenberg, Schroedinger, John Bell etc. vivem até hoje porque nenhum deles via Newton como um dogma religioso: todos eles fizeram únicas e imprevisíveis inovações na teoria básica.

E, no caso de você achar que isso só se aplica às “artes e ciências”, considere as pessoas de maior sucesso na indústria. Henry Ford não ficou rico copiando o barco a vapor de Fulton; ele fez um carro tão barato que qualquer pessoa podia comprar um. Howard Hughes produziu filmes que ninguém mais ousaria tentar, e então passou a revolucionar a indústria aérea. Buckminster Fuller não copiou a forma cúbica de arquitetos anteriores, mas inventou a cúpula geodésica; Na última contagem, existiam mais de 3OO.OOO de seus edifícios, o que o tornou o arquiteto mais visivelmente bem sucedido na história. Steve Wozniak não copiou os computadores da sua época, e sim inventou um, que mesmo um completo idiota (como eu) podia usar (e até se divertir!) Bill Gates criou novos tipos de software. Etc.

Todos nós precisamos da constante reiteração destes truísmos porque vivemos em um mundo onde uma multiplicidade de forças muito poderosas têm trabalhado sobre nós. Do nascimento, passando pela escola até o trabalho, tentam suprimir nossa individualidade, nossa criatividade e, acima de tudo, nossa curiosidade – em suma, destruir tudo que nos encoraja a pensar por nós mesmos.

Nossos pais queriam que nós agíssemos como as outras crianças da vizinhança; eles enfaticamente não queriam um menino ou uma menina que parecessem “estranhos” ou “diferentes” ou (que deus nos ajude) “condenavelmente espertos demais.”

Então entramos na escola, um destino pior que a morte e o inferno combinados. Ao aterrissarmos em uma escola pública ou uma escola religiosa paga, aprendemos duas lições básicas: 1) Existe uma resposta correta para qualquer questão; e 2) A educação consiste em memorizar essa única resposta correta e regurgitá-la nas “provas”.

As mesmas táticas continuam pelo ensino médio e, salvo em algumas ciências, até a universidade.

Através desta “educação” encontramos a nós mesmos bombardeados pela religião organizada. A maioria das religiões, no ocidente, também nos ensina a “única resposta correta”, a qual devemos aceitar com uma fé cega; pior ainda, tentam nos aterrorizar com ameaças de sermos assados após a morte, tostando e fervendo no inferno se alguma vez ousarmos pensar por nós mesmos, de fato.

Depois de 18 a 30+ anos de tudo isso, entramos no mercado de trabalho, e aprendemos a nos tornar, ou a tentar nos tornar, quase surdos, mudos e cegos. Devemos sempre dizer aos nossos “superiores” o que eles querem ouvir, o que veste seus preconceitos e/ou seus desejos fantasiosos. Se notarmos aquilo que eles não queriam saber sobre, aprendemos a manter nossas bocas fechadas. Se não-

“Mais uma palavra, Bumstead, e você está despedido!”

Como o meu Mahatma guru J.R. “Bob” Dobbs diz, “Você sabe o quanto um cara da média é inexpressivo? Bem, matematicamente, por definição, metade deles são ainda mais inexpressivos que isso.”

“Bob” pode ter confundido ‘da média’ com ‘mediano’, mas de certa forma ele acertou na mosca. Metade das pessoas que você conhece parece, de fato mais inexpressiva que uma caixa de pedras; mas elas não começaram assim. Pais, senhores, escolas, igrejas, anunciantes e empregos as transformaram nisso. Cada bebê ao nascer tem um incansável temperamento curioso e experimental. Leva o primeiro terço de nossas vidas para destruir essa curiosidade e experimentalismo; e na maioria dos casos, nos tornamos uma parte plácida de um rebanho dócil.

Este rebanho humano começou com gênios em potencial, antes que a conspiração tácita da conformidade social enferrujasse seus cérebros. Todos eles podem se redimir dessa liberdade perdida, se trabalharem duro pra isso.

Eu trabalhei por isso por 50 ou mais anos até agora, e ainda acho partes de mim agindo como um robô ou um zumbi em ocasiões. Aprendender a “Tornar-se O Que Se É” (como na frase de Nietzsche) leva o tempo de uma vida,  mas ainda parece ser o melhor jogo da cidade.

Copyright: Robert Anton Wilson

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Traduzido do original em inglês http://www.deepleafproductions.com/wilsonlibrary/texts/raw-become.html

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6 respostas
  1. umaequilibrista
    umaequilibrista says:

    é verdade.

    algumas pessoas, e eu me incluo entre elas, chegam à adolescência questionando alguma coisas… daí, a gente lê mta coisa, toma contato com arte, ciência, e tudo o q antes era tão natural passa a ser qestionado. foi qdo eu comecei a me sentir um patinho feio… até hj ñ virei cisne.

    na fotografia do cara q escreveu o texto, ele está com uma camisa onde há um desenho de uma mandala. no ano passado comecei a fzer arte-terapia com mandalas e foi qdo todas essas amarras q o autor cita vieram à tona: daí, saí d um qestionamento mais “geral” e fui pro meu interior, comecei a perceber as consequências mto mto mto doidas q tem pra vida da gente toda a cultura q assimilamos…

    é um conflito q ñ acaba: como conseguir ser eu mesma e, ao mesmo tempo, corresponder às expectativas socias? pq ñ dá simplesmente pra chutar o pau da barraca e dizer: ñ qero conversa. o mundo ao meu redor ñ compreende as coisas da forma q eu, continua a girar segundo o seu tempo… eu tenho d dar um jeito d conviver com ele da forma mais saudável possível, sempre tentando ser coerente comigo mesma. eis um desafio que, como diz o autor, vale uma vida…

    adorei o texto, o blog.
    vou te linkar lá no meu.

    bjo!

    Responder
  2. Bruna
    Bruna says:

    Exatamente isso q penso,q a sociedade é uma indústria,as pessoas são robôs produzidos em série,todos devem ser iguais,a pessoa q é diferente,pensa diferente é condenada pelos outros q se dizem “normais”,a grande maioria das pessoas no mundo passa a vida inteira fazendo algo q não as satisfazem,isso gera muita frustração,depressão.Nos obrigam a olhar o mundo somente por um lado,sendo q ele tem infinitos lados e possibilidades.

    Felizes são aqueles q pensam o q querem,agem como querem e são o q querem!

    Responder

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