Entrando em Estado Psicodélico com Respiração Holotrópica

Escrito por Kevin Franciotti

“Agora comecem a aumentar o ritmo de sua respiração. Respirem cada vez mais rápido e profundamente.” Dr. Stanislav Grof orienta uma sala cheia de participantes que estão para embarcar um uma jornada de três horas, utilizando uma poderosa técnica denominada respiração holotrópica. Com uma fala calma e ponderada, Dr. Grof lidera um breve exercício de relaxamento antes de sinalizar o início da música catalítica que auxilia a experiência imersiva. A música começa a ser tocada em uma aparelhagem de som de alta potência – um ritmo alto e rápido, som de tambores produzindo batidas pulsantes. Durante as próximas três horas, os “respirantes” utilizarão o poder dessa técnica a fim de alcançar um estado de consciência profundo, denominado “não-ordinário”.

A respiração holotrópica surgiu em meados da década de 70. Grof desenvolveu a técnica com a colaboração de sua falecida esposa, embora seu trabalho anterior com LSD tenha fornecido o contexto vital para a adaptação da técnica no âmbito terapêutico. Parte desse contexto inclui o nome em si, cujas raízes são derivadas das palavras gregas holos, que significa “todo, inteiro” e trepein, “voltar-se em direção a”; assim, holotrópico significa “mover-se em direção ao todo” Aos 83 anos, Grof continua a conduzir vários retiros e treinamentos em respiração holotrópica ao redor do mundo.

Retrato de Stanislav Grof pintado por Alex Grey

Retrato de Stanislav Grof pintado por Alex Grey

Grof define os estados holotrópicos como os que se encontram além do estado normal de consciência desperta, possuidores de uma qualidade mística, e que podem por vezes ser alcançados através da meditação, uso de drogas psicodélicas ou em alguns casos pela emergência espontânea dos mesmos. Grof argumenta que tais estados possuem mecanismos curativos inerentes, semelhantes às respostas imunológicas e histológicas ao sofrimento físico. Estabelecer uma intenção objetivando a cura e o crescimento psico-espiritual ao atingir os estados holotrópicos dá início a um processo de auto-cura mental, ele explica.

Em 1971, à medida que drogas psicodélicas se tornavam cada vez mais populares na esfera recreativa, o governo federal tomava medidas repressoras. Esse fato representou um entrave às pesquisas lideradas por Grof, que então utilizava substâncias psicodélicas no Centro de Pesquisas Psiquiátricas de Maryland (ele foi voluntário para os primeiros experimentos com LSD logo após a descoberta da substância por Albert Hofmann). Contudo, Grof havia aprendido o suficiente sobre a relação entre a mente e o poder curativo dos estados não-ordinários de consciência (ENOC) para que pudesse desenvolver uma técnica para atingir tais estados sem o uso de drogas. A teoria da consciência desenvolvida por Grof, que representou uma importante contribuição ao campo da Psicologia Transpessoal, e no final da década de 70 os estágios iniciais do que mais tarde se tornaria o “Treinamento Transpessoal de Grof”, começou com pequenas sessões de respiração holotrópica, inicialmente com a participação de terapeutas.

“A respiração holotrópica é uma técnica simples e elegante, que torna ainda mais claro que a cura está em nosso interior,” escreveu Rick Doblin, diretor executivo da MAPS (Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos), em um e-mail ao Reset.

Doblin foi um dos primeiros formandos do programa de certificação formal, tendo ajudado a organizar um retiro para um grupo de terapeutas internacionais na Áustria. Doblin atribui a Grof por sustentar a fundação da prática de cura e crescimento psico-espiritual através dos estados não-ordinários após a extinção dos programas de psicoterapia psicodélica clínica.

“A respiração holotrópica foi o conector entre a proibição e o renascimento da pesquisa psicodélica,” disse Doblin. “O trabalho de Stan e Christina tem sido fundamental no treinamento de muitos dos pesquisadores da atualidade que investigam a psicoterapia psicodélica, incluindo os Investigadores do Princípio MDMA-PTSD (Ecstasy e Stress Pós-Traumático) em nossos estudos na Carolina do Sul [MAPS] e Canadá.”

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Entrando em Estado Holotrópico com Stan Grof

Quando a música começa, me pergunto se algo realmente vai acontecer. Como a respiração profunda pode causar uma ponderosa experiência, semelhante ao efeito do LSD? Estou em um programa holotrópico denominado “A Jornada para Autodescobrimento: Experiência da Respiração Holotrópica” em um centro de retiro de yoga localizado nas Montanhas Berkshire ao oeste de Massachusetts. Após ter lido sobre a cura aparentemente milagrosa trazida pelas sessões de psicoterapia com uso de LSD no livro escrito Grof, Psicoterapia com LSD Psychotherapy, eu não poderia perder a oportunidade de participar. Após a palestra introdutória extremamente cativante, Grof colocou-se à disposição para responder perguntas sobre o tema e os aproximadamente 60 participantes foram divididos em grupos, liderados pelos facilitadores de Grof. Apesar de meu ceticismo, a música me envolve instantaneamente.

O relaxamento comandado por Grof, apesar de breve, é suficiente para que eu volte meu foco para meu interior e passe a utilizar minha respiração como um veículo. Minha meditação pessoal me ensinou a permanecer atento à respiração para a fim de me centrar e ao mesmo tempo permanecer consciente em relação ao momento presente, mas o que experimento aqui é diferente. É muito rápido. Não estou acostumado a respirar assim e após alguns minutos meu corpo começa a formigar. Continuo respirando. Logo sinto como se meu corpo começasse a vibrar, uma sensação agradável que me distrai. A euforia me convida a ir mais longe, mas desacelero minha respiração, satisfeito com a sensação física. O sentimento começa a arrefecer e peço a meu guia para que me ajude a levantar para que eu possa usar o banheiro. Meu estado de consciência é certamente não-ordinário, meus passos são irregulares e apesar de minha visão estar intacta, visualizo os arredores como se tivesse acabado de acordar de um sonho.

Volto à sala e me deito, imediatamente reengajando com a música e imergindo meu corpo em uma respiração profunda e ritmada. Ao sentir novamente o formigamento, continuo respirando mais rápida e profundamente, e a sensação se intensifica. Lembro que os guias me orientavam a ‘ouvir’ o corpo e por vezes senti vontade de pressão física. Meu corpo vibra mais intensamente que antes e sinto meus antebraços se curvarem devido à hiperventilação. Isso faz minha respiração desacelerar, mas após alguns momentos, quando a vibração diminui e meu braço relaxa, intensifico minha espiração novamente. Peço a ajuda de meu guia e peço alguma pressão física, pareço ter atingido um bloco psicossomático o qual não consigo quebrar.

Minha sessão de respiração pode não ser tão arrebatadoramente poderosa e transformadora como a de alguns de meus colegas; observo-os algumas vezes tão imersos em suas experiências que seus corpos tremem incontrolavelmente enquanto rolam pelo chão, gritando violentamente e acenando para obter intervenção física dos guias e facilitadores.

Decido não mais forçar a respiração, permanecendo deitado, apenas respirando relaxadamente até me sentir cansado. Viro de lado e adormeço. Quando acordo, a música está mais calma e melódica. Olho para meu guia e digo: “Acho que terminei”.

A experiência com a respiração holotrópica é intuitiva, é como ter uma conversa com a mente e o corpo simultaneamente. Enquanto uma experiência com drogas ou o surgimento espontâneo de um estado não-ordinário de consciência podem às vezes colidir com um estado psicológico desagradável, utilizar a respiração oferece uma experiência singularmente ajustável. Como Doblin explicou em seu e-mail, “A respiração Holotrópica é um processo mais controlável, uma vez que você inicia e interrompe o processo por si só”.

Explorar quaisquer aspectos raramente expostos da mente pode ser um desafio, mesmo sem o uso de catalizadores químicos.

Dublin acrescenta: “A natureza voluntária é corajosa, porém de uma forma diferente em relação a tomar uma droga psicodélica, uma vez que aqui trata-se mais de ‘deixar se levar’ do que ‘ser levado’. Entretanto, a mesma natureza voluntária significa que por vezes é difícil superar suas próprias defesas e ilusões.”

Para pessoas sofrendo alguma crise psicológica, buscando crescimento sustentado ou a cura de questões profundas e não resolvidas, a aventura do autodescobrimento que acompanham os estados não-ordinários de consciência pode ser profundamente influenciadora ao delinear a vida pessoal. Muitas pessoas integram o que aprenderam nas sessões de respiração para cura interior a seus papéis profissionais.

“O Trabalho de Respiração Holotrópica trouxe uma dimensão maior ao meu trabalho, uma vez que me permitiu atingir mais profundamente minha dimensão psico-espiritual”, relata uma enfermeira psiquiátrica e facilitadora certificada do trabalho de respiração holotrópica de Grof que liderou um dos pequenos grupos durante o programa realizado no final de semana no qual participei. “O Trabalho de Respiração Holotrópica vai além do processo de entrega total onde abrimos não de estar do controle. Ele me levou ao descobrimento de uma consciência maior que transformou minha vida tanto pessoal como profissionalmente. Existe nela uma Liberdade maior que permite ao espírito trabalhar além da costumeira zona de conforto.”

FONTE RESET.ME

 


 

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www.aljardim.com.br

 

Agradecemos imensamente a tradução feita pela colaboradora Denilce Luca .
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