Primeiros socorros psicodélicos em um festival na Costa Rica

Já era algum tempo após as duas horas da manhã e eu estava sentado na frente de uma estrutura feita de bambu e pano no Festival Envision em Costa Rica. Estava quente o suficiente que eu estivesse vestida com um top e um colar havaiano rosa, levemente brilhante, em volta do meu pescoço. Havia um cheiro de salvia queimada no ar tropical e eu podia ouvir o violino de Emancipador tocando de forma alegre e mesmerizante vindo do palco principal. O espaço parecia tranquilo e suave, que era exatamente o motivo pelo qual estávamos alí. Eu havia embarcado com o Zendo Project, um grupo com sede em Santa Cruz, Califórnia, que fornece um espaço seguro para as pessoas que têm difíceis experiências psicodélicas e outros desafios emocionais ou pessoais durante festivais. O espaço foi montado junto ao espaço medico perto da entrada do evento.

O Zendo Project treina e supervisiona voluntários que auxiliam festivaleiros em apuros com os “Primeiros Socorros Psicodélico” – Trabalho que pode soar parecido com algum tipo de terapia “manêra” interdimensional para aventureiros torturados e alucinados no plano astral, para orientá-lx com segurança através de suas visões intensas. A minha experiência, no entanto, foi totalmente diferente de muito mais gratificante.

Meu turno tinha acabado de começar e eu estava sentado com Yashpal, um doutor de Medicina Natural da Costa Rica, quando eu recebi o meu primeiro chamado da noite. A pedido de um amigo preocupado, Yashpal e eu fui para o campo para acolher um jovem de uma rede de balanço, perto da Palco Lotus. Confidencialidade para os convidados é muito importante para o Projeto Zendo então vamos chamá-lo de “Charlie”. Charlie estava fixado em histórias complicadas sobre as políticas de várias agências do governo de seu país natal, com seus dedos contraídos como garras de frango – mas, com a sua permissão, nós o acompanhamos de volta para o Zendo para acomodá-lo em uma das camas na estrutura temporária, decorada delicadamente. Yashpal imediatamente me chamou de lado para me treinar antes de eu começar.

“O truque é não intervir ou alterar a trajetória de sua viagem de qualquer maneira”, disse Yashpal, parecendo um pouco como Merlin com uma barba grisalha encaracolada e um brilho reconfortante, porém levemente travesso em seus olhos. . “Você não quer engajár-lo. Seja neutro, fale o menos possível e simplesmente deixe-o passar pelo processo. A experiência trará a cura. – Mesmo que não pareça no momento. Confie. Não permita ser puxadao para a sua viagem, segure a sua própria energia. Dê-lhe água, e leve-o ao banheiro se precisar. Concentre-se em sua respiração. Seu trabalho é de manter o espaço para que ele tenha sua experiência. “

Yashpal enfatizou o conceito de “espaço de holding”, ou seja, sentar, manter ao invés de guiar, um dos quatro pilares da abordagem de apoio psicodélico do Zendo. Com isto em mente, sentei-me com Charlie e, ao invés de tentar acalmá-lo, eu simplesmente o observei passar pela experiência. Eu concentrei minha energia e atenção em minha própria respiração e permaneci muito calmo. Eu criei um centro de gravidade que o manteve aterrado sem forçá-lo de qualquer forma. Ouvi atentamente as suas lamúrias e simplesmente sorri e acenei com a cabeça em afirmação de sua necessidade de reafirmação.

Depois de algum tempo se contorcendo no tapete ele me pediu para ajudá-lo a chegar aos banheiros móveis. No caminho, ele parou e voltou seu olhar para as estrelas. Sem o meu treinamento no Zendo, eu poderia tê-lo incentivado a continuar andando para realizar a tarefa em mãos, mas ao invés disso, simplesmente ficamos lá juntos por quase uma hora, enquanto ele me contou sobre seu sonho de ser um astronauta e ver a Terra do espaço. O início de sua experiência foi uma desesperada incoerência, mas com o tempo tornou-se uma nostalgia forte, profunda. Eu não fiz nada para guiá-lo. Eu permaneci perto e mantive-o seguro. Conforme ele aceitou e sentiu sua dor existencial e desejos de viajar ao espaço, Charlie tornou-se muito calmo. Depois de usar o banheiro, ele me disse que estava pronto para voltar ao festival.

Como que aconteceu, de eu conversar sobre astronautas e estrelas na selva da Costa Rica, com uma pessoa que eu havia conhecido?

Os 4 Pilares de Apoio Psicodélico do Zendo

Nas práticas xamânicas tradicionais, a experiência psicodélica é considerada sagrada. Mesmo uma experiência difícil é uma oportunidade para crescimento, cura e revelação. Esta é a abordagem adoptada pela MAPS, a Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos, que conduz a pesquisa que informa o Zendo Project e seus quatro pilares, pelo qual o Zendo orienta seus eventuais voluntários e participantes do festival, no início de cada evento no qual a organização participa. Leia o manual de Treinamento do Zendo Project completo aqui.

1. Crie um espaço seguro

Ambientes de festivais são projetados para serem altamente estimulantes: sistemas de som bombasticos, intens espetáculos de luz e cacofonia geral criam um paraíso surreal para uma aventura. Mas quando as coisas começam a sobrecarregar, estes efeitos dinâmicos podem aumentar a ansiedade. Zendo é projetado para proporcionar tranquilidade e conforto. Além de sentirem-se fisicamente seguros, os convidados devem sentir-se também emocionalmente seguros, o que requer que voluntários exalem uma atitude acolhedora e sem julgamentos.

As condições para este sistema de segurança, de acordo com Sara Gael, Coordenadora de Redução de Danos do MA MAPS, psicoterapeuta holística liderança da Zendo Envisio, são conhecidas como “set” e “setting“.

‘Set’ Refere-se ao estado interno de um indivíduo e inclui o estado emocional e humor, condições mentais pré-existente, estresse, conforto e estágios de desenvolvimento”, ela explica. “‘Setting’ refere-se a condições externas de um indivíduo, incluindo aonde a pessoa está, com quem está, dosagem e interações medicamentosas”.

Gael enfatiza que o set e setting não são mutuamente exclusivas, e afetam e informam uma a outra. Quando sitters prestam atenção ao set e setting de um indivíduo, um sistema de segurança – feito exclusivamente sob medida para aquele indivíduo – pode então ser criado, para que ele ou ela possam entregar-se à experiência, mesmo em caso de surgimento de desconforto ou medo.

2. Sentar, Não Guiar

Ao invés de usar uma intervenção direta, o objetivo é de um sitter é de permitir que ocorra a cura de forma natural. As ferramentas que usamos foram respirar, validação, espelhamento e afirmação. A importância de não intervir na experiência do visitante foi enfatizado repetidamente ao longo de todo o final de semana.

De MAPS: Como trabalhar com experiências psicodélicas difíceis: “Há sempre a tendência de dominar o outro com o nosso conhecimento, sabedoria e insights. Portanto, abra mão de todo o conhecimento sobre a experiência que a pessoa está tendo. Apenas esteja junto, ouça e observe”.

Isto significa que o sitter deve ser rígido e evitar engajar com o visitante a todo momento?

“Pode ser útil providenciar uma reafirmação suave ou reenquadramento da experiência”, explica Chelsea Rose, coordenadora voluntária do Zendo. “Estes métodos de apoio refletem o que já está acontecendo para o indivíduo, ao mesmo tempo garantindo-os que as suas experiências são aceitáveis”.

3. Acompanhe, sem impor

Sitters são ensinados a entender que há um processo natural acontecendo na mente do visitante afetado. Assim, não há esforços para terminar a viagem psicodélica prematuramente; sitters deve simplesmente deixar o visitante experienciar isto com o máximo de segurança e conforto possível.

Linnae Ponté, Diretora de Redução de Danos na MAPS e Fundadora do Projeto Zendo repete o mantra de “Confie. Deixe ir. Seja aberto. Respire. Renda-se.”

Ponté diz que um quando se re-experienta emoções de um trauma passado, (que ocorre as vezes com psicodélicos) ter o espaço para sentir o grau de dor e sofrimento pode ser fundamental para a oportunidade de cura do hóspede. O sitter deve reconhecer que todas as emoções que vêm à superfície durante uma experiência psicodélica muitas vezes são, com frequência, fortemente carregadas e podem levar os visitantes ao limiar de sua consciência.

“Nosso trabalho não é de intervir, mas de confiar em tudo o que está acontecendo para eles, e tudo o que isso desperta em nós, e saber que é tudo temporário,” Ponté continua. “Vivemos em um mundo onde o desconforto emocional é suprimido com todos os tipos de drogas e comportamentos, e oferecemos aos visitantes a oportunidade de ao invés disso ir em encontro com o desconforto, e descobrir o que está por baixo dele”.

4. Difícil não é sinônimo de ruim

A suposição de que uma experiência difícil é “ruim” pode de fato contribuir para a ansiedade e desconforto geral de uma viagem. “A mentalidade evidente na expressão ‘bad trip’ ajuda a esclarecer sobre os métodos ultrapassados e prejudiciais pelas quais muitas vezes essas experiências são freqüentemente abordadas, incluindo a internação e o envolvimento da aplicação da lei”, explica Sara Gael. Esta abordagem de lidar com alguém que tem um difícil experiência psicodélica é comum em eventos e muitas vezes piora ou agrava a situação. São métodos que tentam acabar ou interromper a experiência do indivíduo e pode enviar uma mensagem para o indivíduo de que algo está errado com elx ou que elx não está segurx”.

Claramente, esta não é a abordagem apropriada para alguém que já está sentindo-se sobrecarregado ou amendrontado.

Para uma explicação mais completa sobre como apoiar os indivíduos que estão experimentando uma intensa experiência psicodélica, inclusive sobre preocupações éticas importantes, vá para o recém-compilado: Manual de Apoio Psicodélico. Este incrível recurso foi o resultado de uma colaboração entre pesquisadores, artistas, psiquiatras, terapeutas, psiconautas, e produtores de festivais e está livremente disponível sob uma licença Creative Commons.

De Tendas de Bad Trip à Santuários

Festivais têm uma longa história de frequentadores que necessitam de apoio psicológico. Isso pode ser o resultado do uso de substâncias ou por um festival com ambiente estimulante. O primeiro grupo conhecido pela prática de primeiros socorros psicodélico foram The Hog Farmers, uma comuna hippie associada ao Grateful Dead e os Merry Pranksters. Em 1969 Woodstock Music & Art Fair, os Hog Farmes, liderado por um palhaço afável chamado Wavy Gravy, gerenciou a segurança com “tortas de creme e garrafas Seltzer (spray)” Eles tripularam o que ficou conhecido como a “Tenda da Bad Trip”, apoiando as pessoas que acreditavam ter recebido LSD mal fabricado. Quando participantes se recuperavam, tornavam-se praticantes que ajudavam a novos pacientes. Este processo continua até hoje, com os participantes que recebem atendimento em espaços seguros muitas vezes retornando como voluntários nos festivais seguintes.

Grupos informais prestando zonas de apoio continuaram em shows do Grateful Dead nos anos 70 e 80. Outros notáveis profissionais de primeiros socorros psicodélicos ao longo dos anos incluem os Voluntários CALM que têm apoiado o Rainbow Gathering desde 1972; White Bird, um grupo que oferece serviços gratuitos no Oregon Country Fair; e Rock Med, uma organização voluntária na área da Baía de San Francisco.

Esta tradição continuou com os Green Dot Rangers and Sanctuary no Burning Man, que são guiados pelo modelo similar, o FLAME: Descubra, Ouça, Analise, Medie e Explique (Find out, Listen, Analyze, Mediate and Explain). Joseph Pred, fundador do Departamento de Serviços de Emergência do Burning Man e dos Green Dot Rangers, e agora um consultor de gerenciamento de emergência de eventos, foi inspirado em 1998 por equipes de intervenção de crise municipais e modelo “Space Tent” (ou “Tenda Espacial”) do Rock Med para criar um quadro combinado de profissionais e conselheiros de pares que permita que o apoio no campo para a equipe de emergência, bem como a criação de um espaço tranquilo e seguro para aqueles que precisem.

Desde descriminalização das drogas, em 2001, Portugal tem sido uma força de liderança na redução de danos. O espaço psicodélico mais seguro e sofisticado do mundo existe no Boom Festival. O que começou como uma pequena cúpula chamado The Ground Central Station (A Estação Central da Terra) em 2002, desde então, evoluiu para o Kosmicare Cluster, que inclui uma tenda anexa para os participantes em situações extremas e um “Kiva” nativo americana tradicional para aqueles que experimentam algo semelhante a uma viagem xamânica tradicional. Kosmicare é descrito como “um lugar seguro para aterrar as energias galácticas e experiências intensas.” Trata-se de uma colaboração entre o festival, MAPS, Universidade Católica do Porto e de várias instituições governamentais. Por conta do ambiente ser tão aberto e colaborativo, houve também pesquisas avaliativas significativas realizadas em seus programas.

Também em 2001, a MAPS começou a reunir profissionais médicos e voluntários para oferecer assistência e apoio para os indivíduos submetidos a difíceis experiências psicodélicas. Tem desde então trazido seus conhecimentos para ajudar a desenvolver e apoiar modelos psicodélicos de redução de danos ao Boom Festival, Envision, Bicycle Day, AfrikaBurn na África do Sul, e Burning Man.

Fundada pelo MAPS, o Projeto Zendo foi lançado em 2012 por Linnae Ponte. O projeto recebeu financiamento e orientação do MAPS, bem como o financiamento privado, e os organizadores têm planos para lançar outra campanha Indiegogo neste verão para ajudar a cobrir os seus custos. Além do Envision, o Projeto Zendo vai criar um espaço seguro na Lightning in a Bottle, AfrikaBurn e Burning Man, em 2015. Para as festas, este tipo de serviço pode provar ter um valor inestimável.

Eu tornei-me pessoalmente ciente de primeiros socorros psicodélico depois de visitar um espaço seguro de redução de danos chamado de Sanctuary no Shambhala Music Festival em 2014. De acordo com seu site “O Sanctuary fornece serviços e apoio sem julgamentos e acolhe à todos que sintam que precisam de um lugar tranquilo e seguro, para descansar em qualquer momento durante o festival. Se você está se sentindo estressado, sobrecarregado, isolado, frio, molhado, precisa sair do sol por um tempo, só precisa relaxar ou precisar de alguém para conversar, nossos voluntários do Sanctuary ficarão felizes em ajudar”.

Shambhala é outro festival conhecido por seu compromisso radical para os cuidados na comunidade, bem como seus sofisticados esforços para garantir a segurança dos participantes. Além do Sanctuary, estas iniciativas incluem a política do álcool zero, testes de drogas no local, uma equipe de divulgação, serviços de saúde sexual e um espaço seguro para as mulheres.

Espaço de Holding para a Tribo

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Foto por Galen Oakes

Além de para fornecer um espaço seguro e treinamento para voluntários, parte da missão do Zendo é demonstrar ao público como as comunidades de festivais podem tomar medidas proativas para garantir que participantes do evento tenham apoio psicológico, a fim de reduzir o número de internações e de detenções relacionadas com a drogas. Isso envolve trabalhar em colaboração com outros departamentos do serviço de emergência no local, incluindo médicos e equipe de segurança.

Stacette Lockdown, Gerente de Redução de Danos de Shambhala, salienta que a comunicação interdepartamental com todas as entidades de segurança pública é muito importante. “Segurança trabalhando com médicos, medicos trabalhando com espaços seguros”, ela explica. “Estamos todos conectados e quando permanecemos conectados a esse nível, isto aumenta a segurança do festival.”

Joseph Pred concorda. “Ter a redução de danos abertamente integrado com serviços de segurança e médicos é fundamental para triagem apropriada aqueles que no passado acabaram parando na cadeia ou em hospitais de forma desnecessaria à terem melhores resultados, concedendo-lhes apoio no início de seu processo.”

Investir em um espaço seguro também envia uma mensagem de que os produtores estão fazendo da segurança de seus participantes uma prioridade. De acordo com Diogo Ruivo, fundador do Boom Festival, “Os promotores tornam-se os responsáveis por “manter o holding da tribo “, ainda mais quando o evento atrai dezenas de milhares de pessoas. Por isso, é obrigatório incluir na produção do evento a construção de um ou mais espaços dedicados a lidar de forma responsável com tais ‘emergências’, independentemente das atitudes manifestadas pelo governo hospedeiro”

Cameron Bowman, “O Advogado de Festivais”, diz: “Não há nada contra a lei sobre festivais que prestam este tipo de serviço de “primeiros socorros psicodélico”. É claro que os produtores podem não achar que isso valha o investimento ou o governo anfitrião poderá não sentir que é valioso. Mas é perfeitamente legal”.

Kai Chotard, Diretor de Segurança da Envision, expressou sua gratidão pelo apoio de Zendo. “A assistência imensurável que foi dirigido por Zendo no Festival Envision vai além das palavras”, diz Chotard. “A presença de Zendo preenche as necessidades experimentais de certos freqüentadores do festival com um programa altamente profissional que permite que as pessoas sintam-se seguras e protegidas enquanto exploram novas formas em um novo lugar”.

Apesar do apoio Às “necessidades experimentais de certos freqüentadores do festival” é algo pelo qual o Zendo é reconhecido, as lições que aprendi mostraram-se imediatamente valioso em uma situação onde o meu convidado não estava sob o efeito de qualquer substância.

Me disseram que eu poderia vir aqui e conversar”

Foto Courtesia de Boom Festival

Foto Courtesia de Boom Festival

Eram 07h30 e meu turno terminaria às 10:00. Parecia improvável que teríamos quaisquer outros hóspedes, então eu esperava poder tirar um cochilo e meu líder de turno Bette Carson poderia me acordar, caso ela precisasse. Naquele momento, uma mulher com os olhos marejados e sem fôlego aproximou-se do espaço Zendo. Vou chamá-la de “Emily.” Ela estava em seus vinte e poucos anos. Ela disse para ninguém em particular: “Sinto muito incomodá-los. Eu preciso de ajuda. Eu não ingeri qualquer tipo de droga. Eu estou tendo um colapso. Está tudo tão fodido. Eu estou simplesmente exausta. Alguém me disse que eu poderia vir aqui e falar com alguém.” Bette fez algumas anotações em sua prancheta e virou-se para mim. “Você quer ajudar?”. Sem dúvidas.

Primeiramente fomos ao posto médico para ter certeza que ela tinha tudo que precisava. Depois de ser brevemente atendida por um enfermeiro local, Emily foi dada água eletrólita e um lugar à sombra para se sentar. Respirando profundamente, eu sentei com ela e ouviu a sua história. Ela estava sóbria há quatro anos e estava viajando com dois amigos que estavam passando por uma separação tóxica. O ambiente negativo com seus amigos espelhou um ambiente familiar desafiador e representou exatamente o motivo pelo qual ela estava viajando para fugir. Ela me disse que ela tinha chegado a Envision para ter uma experiência espiritual.

Embora dela não estar passando por uma crise psicodélica, eu usei as técnicas que aprendi com Zendo e simplesmente ouvi, respirei e contive um espaço para ela. Foram muito poucos os momentos no qual me senti obrigado a dar uma opinião e por isso, quando o fiz, isso significava muito mais. Ela disse que estava envergonhada e sentia-se fraca; Sugeri que permanecer sóbria e ter vindo buscar ajuda foi uma atitude poderosa. Ela disse que queria apenas ter uma experiência espiritual na Costa Rica. Disse-lhe que, no meu ponto de vista, ela estava de fato tendo um.

Quando Emily se acalmou nós verificamos o cronograma em conjunto e consideramos algumas experiências enriquecedoras e workshops que ela pudesse assistir sozinha, a fim de tornar o último dia do festival realmente algo dela. Quando meu plantão terminou às 10:00 Eu a ajudei a mudar para outro sitter para que ela pudesse sentir-se apoiada até estar descansada e pronta para sair.

Espaço de Holding para nós mesmos

Courtesia de Shambhala

Courtesia de Shambhala

As drogas psicodélicas estão retornando para o mainstream, para além do seu uso em determinados eventos e encontros. Em 09 de fevereiro de 2015, o New Yorker publicou um artigo inovador por Michael Pollan, autor amplamente respeitado que escreveu “O Dilema do Onívoro” (The Omnivore’s Dilemma, em inglês), sobre o tema das drogas psicodélicas. O artigo The Trip Treatment discute o uso da psilocibina, a substância química ativa em “cogumelos mágicos”, para aliviar a ansiedade de fim de vida em ensaios clínicos na Universidade de John Hopkin e Universidade de New York. Enquanto o artigo focava em aplicações médicas para substâncias psicodélicas, a conclusão de Pollan ofereceu apoio à ideia controversa que as experiências espirituais disponibilizadas por psicodélicos poderiam funcionar para “o aperfeiçoamento de pessoas saudáveis.”

O artigo de Pollan foi rapidamente seguido por explorações semelhantes em The Atlantic e Forbes. Além da investigação voltada para aplicações médicas, os resultados publicados no Journal of Psychopharmacology demonstraram que o uso de drogas psicodélicas “não aumentam o risco de problemas de saúde mental.” Com o interesse renovado a partir de um ponto de vista científico e tanta atenção popular, é mais relevante do que nunca que técnicas de redução de danos sejam disponibilizadas aonde for necessário, e que profissionais bem informados sejam capazes de oferecer uma abordagem unificada e calculada para os desafios psicodélicos.

O Projeto Zendo oferece um serviço incrível para aqueles que experimentam uma crise. Há também grande valor para os festivais do ponto de vista de produção, liberando os recursos de equipes médicas e de segurança tradicionais e enviando a mensagem de que o zelo dos participantes é uma prioridade. Menos óbvio são as experiência profundamente transformadoras providas pelos próprios voluntários. É uma crença comum de que quando você dá aos outros, você recebe em troca o tanto quanto deu. Isto é especialmente verdadeiro quando se trata de holding para a crise psicológicas dos outros.

O que eu encontrei no Zendo foi uma maneira de colocar o meu ego de lado e simplesmente testemunhar a transformação de um outro ser humano. Sempre levei uma abordagem assertiva quando os amigos estavam em crises; quero aliviar o seus sofrimentos com uma enxurrada de conselhos ou levar o problema e devolvê-lo como um “Cubo Mágico” solucionado. Zendo me ajudou a perceber que, embora as vezes seja útol, fixar questões às pessoas pode acabar usurpando seu poder.

Durante o sitting com meus convidados eu experimentei o que significava simplesmente segurar o espaço – ao invés de tentar ser um herói – e simplesmente testemunhar a cura ocorrendo. Observando essa transformação na minha própria maneira de pensar, percebi que no ato de segurar o espaço para outro a crescer, eu também estava segurando espaço para mim mesmo.

Eu gostaria de agradecer a todos os meus conselheiros generosos deste projeto: Sara Gael, Yashpal e Linnae Ponté do Projeto Zendo; Cameron “O Advogado de Festivais” Bowman; Joseph Pred;os Irmãos Justin e toda a equipe do Festival Envision; meus colegas voluntários intrépidos do Zendo; e aquelas almas corajosas que vieram obter a ajuda que precisavam.


FONTE FEST300

Agradecemos imensamente a tradução feita pelo colaborador Gabriel Pedroza.
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