Por que os Psicodélicos são Ilegais?

Arte da civilização Minoica, que existiu de ~2700 a.C. até ~1450 a.C.

Terence McKenna via a cannabis, psilocibina, DMT, LSD, e outros psicodélicos como “catalisadores para uma divergência intelectual.” Em seu livro Retorno à Cultura Arcaica (1991), defende sua hipótese de que os psicodélicos sempre foram ilegais “não por causarem transtornos àqueles que se tem visões” mas porque “existe algo a respeito deles que levanta uma dúvida a cerca da realidade.” Isso torna difícil, observou McKenna, para que as sociedades – mesmo as democráticas e especialmente as “dominadoras” – os aceitem, e estamos por viver numa sociedade global do tipo “dominadora”.

McKenna costumava usar os termos “igualitária” e “dominadora” para se referir aos tipos de sociedades e relações. Riane Eisler, cujo trabalho McKenna sempre elogiou, surgiu com essas expressões. Em Retorno à Cultura Arcaica, McKenna escreveu:

Recentemente Riane Eisler na sua importante revisão da história, The Chalice and the Blade, destacou a importância da noção de que modelos de sociedade de “parceria” estão em competição e são oprimidos por formas de organização social “dominadoras”. As culturas dominadoras são hierárquicas, paternalistas, materialistas e de domínio masculino. Sua opinião é a de que a tensão entre essas duas formas de organização social e a superexpressão do modelo dominador são responsáveis pela nossa alienação. Concordo plenamente com os argumentos de Eisler.

Para entender melhor a visão de McKenna sobre a ilegalidade dos psicodélicos, vamos examinar por que o mundo atual opera na forma dominadora ao invés da igualitária, e o que estes termos significam exatamente. Para isso, vamos partir do trabalho de Eisler, o qual (muito similar ao de McKenna, acredito) expõe de forma elaborada os aspectos da história e da natureza que são deliberadamente suprimidos. Em seu livro O Cálice e a Espada, Eisler argumenta que na maior parte dos últimos ~32.000 anos, os seres humanos viviam em sociedades igualitárias, dentro de uma cultura igualitária global – um modo de vida que é praticamente inimaginável nos dias de hoje.

O Cálice e a Espada (1987) por Riane Eisler

Eisler apresenta os termos igualitário e dominador em sua teoria da Transformação Cultural, a qual propõe que “sob a grande superfície da diversidade cultural humana estão dois modelos básicos de sociedade.” (1) No modelo dominador, metade da humanidade está colocada sobre a outra metade. Uma vez que este viés envolve “a diferença mais fundamental dentro de nossa espécie, entre masculino e feminino,” ele então se torna a base para todas as outras relações (e, eu acredito, até mesmo em experiências). (2) No modelo igualitário, a diversidade não é medida com inferioridade ou superioridade; ao invés de se criar uma hierarquia entre as características, se cria um vínculo.

Na visão de Eisler, a dicotomia dominador/igualitário não é específica de ideologias (tanto o capitalismo quanto o comunismo podem, e devem, ser operados sob os valores dominadores) nem de gênero – tanto homens quanto mulheres podem, e tomam, atitudes dominadoras. McKenna ressalta este aspecto em particular no trabalho de Eisler. Ele disse em The Evolutionary Mind (1998):

Eu não vejo isso como uma doença masculina. Eu acredito que todos aqui nessa sala tem um ego muito mais forte do que o necessário. Uma ótima coisa que Riane Eisler fez em seu livro O Cálice e a Espada para esta discussão, foi desatrelar as terminologias aos gêneros. Ao invés de falar sobre patriarcado e tudo mais, deveríamos falar sobre a sociedade dominadora versus a igualitária.

Embora seja senso comum a ideia de que os homens são historicamente dominantes, o sexo opressivo – o que potencialmente iria desacreditar a teoria neutra dos gêneros de Eisler – está incorreto. Eisler mostrou que o modelo dominador que agora existe a nível global, e o qual é indiscutivelmente liderado pelos Estados Unidos, um país cujos 44 presidentes e vice-presidentes eram homens, é um evento recente. De ~35.000 a.C. (período estipulado de quando foram feitas as famosas estatuetas de Vênus) até ~5.000 a.C., os humanos viviam no modelo igualitário. Não havia nem patriarcado nem matriarcado. McKenna diz em seu livro Alimento dos Deuses (1992):

Eisler utilizou registros arqueológicos para argumentar que ao longo de vastas áreas e por muitos séculos as sociedades igualitárias do antigo Oriente Médio não enfrentavam guerras nem revoltas. A guerra e o patriarcado surgiram com o aparecimento dos valores dominadores.

Evidências desse estilo igualitário foram descobertas, assim como em outros lugares, num local chamado Catal Huyuk na Anatólia. As escavações permitiram um estudo do período de ~7.500 a.C. (quando o livro de Eisler foi publicado, as escavações datavam de até ~6.500 a.C.) até ~5.700 a.C. Os arqueólogos encontraram “nenhuma evidência de desigualdade social”, uma organização social matrilinear e matrilocal, e que “a divina família de Catal Huyuk” era representada pela seguinte ordem de importância: mãe, filha, filho e pai. Mais de 40 dos 139 cômodos escavados entre 1961 e 1963 parecem ter exercido o papel de templos; “a religião da Grande Deusa parece ser a característica mais proeminente e importante da vida.” Eisler disse:

Também é verdade que em Catal Huyuk e outras sociedades neolíticas as representações antropomórficas da Deusa – a jovem Virgem, a Mãe Natureza, e a velha anciã, e todas as demais até chegarmos em Creatrix, são, como posteriormente observou o filósofo grego Pitágoras, projeções de vários estágios da vida de uma mulher. O que também sugere uma organização social matrilinear e matrilocal é que em Catal Huyuk o local onde se situavam as possessões pessoais das mulheres bem como sua cama ou divã era sempre no mesmo lugar, no lado leste do quarto. Já a parte do homem além de variável, é, de certa forma, menor.

Eisler complementa:

Também é verdade que em Catal Huyuk e outras sociedades neolíticas as representações antropomórficas da Deusa – a jovem Virgem, a Mãe Natureza, e a velha anciã, e todas as demais até chegarmos em Creatrix, são, como posteriormente observou o filósofo grego Pitágoras, projeções de vários estágios da vida de uma mulher. O que também sugere uma organização social matrilinear e matrilocal é que em Catal Huyuk o local onde se situavam as possessões pessoais das mulheres bem como sua cama ou divã era sempre no mesmo lugar, no lado leste do quarto. Já a parte do homem além de variável, é, de certa forma, menor.

Por que, então, ~7.000 anos atrás, quando o modelo dominador veio a existir, foram as mulheres – e não os homens – que sofreram opressão? A resposta, mostrou Eisler, está na percepção de que apenas as mulheres dão a luz. Humanos pré-históricos, ao notar que nova vida adentrava o mundo exclusivamente pelo corpo feminino – o qual também os nutria e cuidava para aquela nova vida – aparentemente desenvolveram uma religião/perspectiva que era centrada no culto à divindade feminina. Eisler usa a palavra “culto” com a ideia de que, “na pré-história e, num âmbito maior, outros tempos da história, religião era a vida, e a vida era religião.” Mulheres e homens cultuavam uma abstração feminina sem distinções, a qual Eisler chamou de Deusa. Isto persistiu até mesmo depois do desenvolvimento da agricultura e da criação das primeiras civilizações, ~10.000 anos atrás:

Também é verdade que em Catal Huyuk e outras sociedades neolíticas as representações antropomórficas da Deusa – a jovem Virgem, a Mãe Natureza, e a velha anciã, e todas as demais até chegarmos em Creatrix, são, como posteriormente observou o filósofo grego Pitágoras, projeções de vários estágios da vida de uma mulher. O que também sugere uma organização social matrilinear e matrilocal é que em Catal Huyuk o local onde se situavam as possessões pessoais das mulheres bem como sua cama ou divã era sempre no mesmo lugar, no lado leste do quarto. Já a parte do homem além de variável, é, de certa forma, menor.

Durante 3.000 anos após a condensação da raça humana em civilizações, os povos continuavam a cultuar a Deusa e viviam de forma pacífica. Eisler observou que “praticamente todas as tecnologias materiais e sociais fundamentais para a civilização foram desenvolvidas antes da imposição da sociedade dominadora,” o que significa que a guerra evidentemente não é, contradizendo “o que um teórico do Pentágono defenderia,” necessária “para o avanço tecnológico, e por consequência, cultural.” Eisler chama isso de “um dos segredos da história mais bem guardados.”

Foi assim até que em ~5.000 a.C. o modelo dominador apareceu na forma de “grupos nômades” nas áreas periféricas que atacavam as civilizações preexistentes, as quais todas seguiam o modelo igualitário. Mecanismos de defesa como trincheiras e baluartes – que não existiam até então – foram gradualmente aparecendo. “Estas repetidas incursões, choques culturais e realocação de populações se concentraram em três grandes impulsos,” escreveu Eisler, chamando-as de “Onda No. 1” (4300-4200 a.C.), “Onda No 2” (3400-3200 a.C.), and “Onda No. 3” (3000-2900 a.C.). “No cerne do sistema dos invasores, se dava um valor maior à força que tira vidas, ao invés daquela que dá vidas,” observou Eisler. Assim que os dominadores conquistaram, passaram também a suprimir o antigo estilo de vida, o que significou suprimir o culto à Deusa e consequentemente acarretou uma marginalização das mulheres no geral. A Deusa, e também as mulheres, alega Eisler, “foram reduzidas a esposas ou concubinas. Gradualmente a dominância masculina, a guerra e a escravidão das mulheres e dos homens com jeitos mais “afeminados” se tornou a norma.” Eisler escreveu:

Depois do período inicial de destruição e caos, gradualmente emergiram sociedades que são celebradas nos livros das escolas e universidades como aquelas que marcam o princípio da civilização ocidental.

A última sociedade igualitária foi a civilização Minóica, a qual, observou Eisler, não costuma ser citada em cursos sobre a civilização ocidental. Os precursores dos Minoicos chegaram na ilha de Creta em ~6.000 a.C., trazendo com eles o culto à Deusa. Por ~4.000 anos, a civilização Minoica prosperou, demonstrando “nenhum sinal de guerra” e “uma distribuição de riquezas equitativa.” Eles decoravam suas casas e espaços públicos com “uma tradição artística singular nos anais da civilização,” e tinham quatro formas de escrita. Na Creta Minoica, Eisler cita um estudioso em seu livro, “Para qualquer lado que olhe, pilares e símbolos lhe lembrarão da presença da Grande Deusa.” Se baseando em sua pesquisa, a Eisler pareceu que a mítica civilização de Atlântis, a qual Platão descreveu no século IV a.C., era “na verdade um resquício da memória popular, não de um continente perdido no Atlântico, mas sim da civilização Minoica de Creta.”

A arte minoica tinha seu foco na natureza e não retratava glorificações de brutalidade ou guerra.

Em 1100 a.C., de acordo com Eisler, “tudo se acaba.” O modelo dominador, na forma de patriarcado, assumiu totalmente o controle. As mulheres, até então iguais aos homens por pelo menos ~30.000 anos, repentinamente passam a experienciar um menor status. Elas eram marginalizadas na Grécia Antiga, cuja democracia “excluía a maior parte da população (que não permitia a participação de mulheres e escravos).” Na visão de Eisler, “muito do melhor” na Grécia Antiga – “o grande amor à arte, o intenso interesse pelos processos naturais, as ricas e variadas simbologias míticas de ambos feminino e masculino” – podem ser “traçadas de volta à era anterior” da Creta Minoica. Resquícios do culto à Deusa também sobreviveram na Grécia Antiga, na forma de muitas deusas gregas, mas todas subordinadas a Zeus. As coisas continuaram por se deteriorar até que chegaram a um ponto onde a Bíblia, no Antigo Testamento, explicitamente proclama, observou Eisler, que “é a vontade de Deus que as mulheres sejam governadas pelos homens.” Eisler diz:

Se lermos a Bíblia como uma literatura social normativa, a ausência da Deusa é a declaração mais importante sobre o tipo de ordem social que os homens, que por muitos séculos escreveram e reescreveram este documento religioso, se esforçaram para estabelecer e manter.

Dos próximos ~2.000 anos até o presente, se pode ver uma recuperação gradual – com crescentes e perigosos recessos, uma vez que agora a guerra envolve armas de destruição massiva – da repentina infiltração do modelo dominador, o qual, desde seu surgimento, tem estado num processo constante, de forma tanto consciente quanto inconsciente, destruindo e abafando evidências da religião original da Deusa e suas várias revivificações ao longo da história.

*

Hoje, a menos que você seja membro de uma tribo indígena como os Kung no sul da África ou os Bambutino Congo, você vive firmemente dentro de uma cultura dominadora global. Eisler escreveu: “Para nós, depois de milhares de anos de uma severa doutrinação, isto é simplesmente a realidade, o jeito que as coisas são.” McKenna observa que, especialmente nas sociedades dominadoras, as pessoas não são encorajadas a questionarem seus comportamentos ou o porquê das coisas serem do jeito que são – questionamentos que, entre outros efeitos, são levantados com o uso de psicodélicos. Como McKenna disse em 1987:

Os psicodélicos são ilegais não porque tem um governo amoroso que está preocupado que você possa saltar para fora de uma janela do terceiro andar. . Psicodélicos são ilegais porque dissolvem as estruturas de opinião e culturalmente estabelecidos modelos de comportamento e processamento de informações. Eles abrem até a possibilidade de que tudo o que você sabe está errado.

Seguindo essa linha, eu encorajo as pessoas a ficarem chapadas e lerem O Cálice e a Espada. Ou ficar chapado e ouvir Man & Woman at the End of History,” uma discussão de vários dias entre Eisler e McKenna e que foi transmitida no rádio em 1988. Na discussão, McKenna introduz o papel dos psicodélicos na teoria de Eisler que, por sua vez, compara o estilo da oratória de McKenna a fogos de artifício: “Você ilumina tantas coisas tão rapidamente e então passa de uma pra outra.” Vou terminar esta semana com um exemplo disso, da mesma discussão:

Estão nos dizendo que estamos no meio de uma crise política tremenda que age sob o rótulo de “o problema das drogas.” Mas o problema das drogas é o problema do vício. E o vício, na minha opinião, é o vício das agências de inteligência em vastas quantidades de dinheiro. Este é o vício que conduz o problema das drogas no mundo. Mas é claro que também existem dependências químicas. E existe uma coisa muito interessante sobre os seres humanos. Alguma coisa – e vou falar um pouco mais sobre isso amanhã – mas alguma coisa sobre nossa habilidade em ser onívoros, de comer todos os tipos de coisas, nos abriu para, talvez manipulação seja uma palavra muito forte, mas certamente para pressões seletivas da evolução que não estão ordinariamente presentes. A maioria dos animais comem poucos alimentos. Muito animais comem apenas um alimento. Nossa habilidade em ser onívoro nos expôs – nos últimos quatro, cinco milhões de anos – a um vasto número de compostos mutagênicos e sinérgicos que podem ter sido responsáveis por tais coisas como a prolongamento da adolescência em nossa espécie ou o modo como ocorre a lactação.

Obtenha mais conteúdo como esse

Inscreva-se em nossa newsteller e receba os novos posts em seu email!

3 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 × 2 =