O Poder dos Cogumelos para Salvar o Planeta

Em uma pequena fazenda de cogumelos aninhada há cerca de uma hora de distância de Seattle, Paul Stamets põe a mão na massa. Abaixo do solo em todo lugar da Terra está a maior rede de comunicação organismo-organismo: A internet natural, como ele a chama. Stamets é um dos principais micologistas (que estudam os cogumelos e sua estrutura raiz conhecida como micélio) do mundo. Há um imenso poder no micélio, ele diz, para coisas tais como aumentar a imunidade humana, limpar vazamentos de óleo, e nos proteger contra surtos de doenças. Mas mais do que qualquer coisa, Paul Stamets adora sentir o cheiro dele.

O fato de que cogumelos possuem poder próprio é uma surpresa-pelo menos para mim. Muitas pessoas imaginam os cogumelos como pragas de jardim, ou como alimento. Em uma TED Talk que Stamets deu em 2011, ele tentou mostrar que cogumelos possuem potencial para fazer mais pelo planeta do que qualquer outra forma de vida, incluindo a humana. É tempo, ele argumentou, de libertar os cogumelos das garras dos gourmets e senhores das guerras psicodélicas.

Cogumelos Morel, conhecidos por serem difíceis de crescerem fora de um laboratório, nasceram na fazenda de Stamets.

Cogumelos Morel, conhecidos por serem difíceis de crescerem fora de um laboratório, nasceram na fazenda de Stamets.

O que faz os fungos tão únicos é o fato de que suas células são feitas de uma molécula chamada quitina, em vez de celulose, como ocorre com as plantas. A quitina é maleável, mas também resistente. A sua habilidade de defender-se de patógenos externos faz com que ela adquira valor na medicina e como alimento. Talvez o melhor de tudo, ela cresce rápido. Algumas raças se iniciam do tamanho de uma unha e se tornam 90 toneladas de biomassa em apenas alguns meses.

Corpulento e barbudo, Stamets têm a aparência de um homem que realmente sabe do que está falando. A maneira que ele fala-largando termos como “formação de amilóides” e “extratos pré-esporulantes”- faz com que eu lembre que não sei. Ele dirige uma empresa chamada Fungi Perfecti e divide o tempo entre sua fazenda em Shelton, Washington, e viajar o mundo procurando por novos cogumelos que ele pode trazer de volta para o laboratório para analisar e cultivar.

Quantos micologistas existem atualmente no mundo, eu perguntei para ele quando caminhávamos pela sua floresta-quintal que aparentava estar repleta de micélio. “Cerca de 50.000″, ele disse. “Mas somente 5.000 estão empregados”.

Isso faz dele um dos sortudos. Sua estrutura é uma fazenda em escala completa para o cultivo de micélio. As placas de “Não Ultrapasse” e avisos que você está sendo gravado fazem parte do plano de Stamets para manter a fazenda segura, tanto de futuros ladrões procurando por raças de cogumelos valiosas, e, ocasionalmente, do governo. Alguns anos atrás, Stamets disse que  um helicóptero Blackhawk sobrevoou a fazenda suspeitando de atividades ilegais. Isso é algo a que os micologistas estão acostumados. Ele diz que não tem nada a esconder, mas ainda assim ele não confia nos policiais, então ele disse para todos os empregados pegarem amostras de diferentes raças que poderão ser replicadas mais tarde, e então se espalharem. Acabou por ser um grande mal-entendido.

Nós temos acesso ao entendimento do que cogumelos e suas raízes podem fazer. Cogumelos Shiitake são conhecidos por aumentarem a imunidade e abaixarem o colesterol. Cogumelos white button possuem antioxidantes que reduzem o risco de problemas de coração.

Mas são espécies menos conhecidas como turkey tail , oyster e agarikon que Stamets deseja estudar para meios que, nas palavras dele, podem salvar o planeta. Cogumelos oyster em particular estão sendo testados por sua habilidade de limpar vazamentos de óleo. Uma raça que Stamets ajudou a desenvolver é tolerante à água salgada e pode metabolizar hidrocarbonetos. Um teste mostrou que uma raça do cogumelo oyster pode reduzir contaminantes de óleo diesel do solo de 10.000 partes por milhão para somente 200 em apenas alguns meses. O processo não é uma solução instantânea para o desastre, mas mostrou eliminar o óleo completamente organicamente, sem usar os tipos de dispersantes químicos controversos usados no Golfo do México após o vazamento de 2010.

Stamets segura diversos cogumelos lions mane que ele cultivou. Estudos mostraram que eles podem ter pistas na luta contra doenças como alzheimer, esclerose múltipla e demência.

Stamets segura diversos cogumelos lions mane que ele cultivou. Estudos mostraram que eles podem ter pistas na luta contra doenças como alzheimer, esclerose múltipla e demência.

Outros cogumelos como os Mycena alcalina, têm o potencial de quebrar Bifenilpoliclorados, um agente causador de câncer utilizado uma vez na fabricação de latas. Stamets explicou como os cogumelos, se dado a eles tempo de ativarem seus próprios sistemas de defesas, podem ser uma defesa contra armas químicas que podem espalhar doenças infecciosas como Varíola.

“Aqui, cheire isto”, disse Stamets, aproximando um punhado de micélio do meu nariz. Parecia com salada de repolho, mas tinha cheiro de terra rica, viva; Terra ligeiramente picante que eu não pude fazer nada senão cheirar novamente. “Não é incrível, ahh, eu poderia cheirar isso o dia inteiro”.

Apesar de mais de quatro décadas estudando cogumelos, Stamets é um homem que parece genuinamente apreciar falar de suas qualidades. Ele mesmo vai todos os anos para o festival Burning Man, o festival na Nevada do Norte, só para falar deles.

Ser um expert em um campo tão pequeno tem suas vantagens também. Em um quarto Stamets nos mostrou diversos vidros de extratos líquidos de cogumelos, elixires potentes que contêm raças avançadas de alguns micélios. “As empresas farmacêuticas querem muuuuito isso”, ele nos contou. Uma semana antes de nossa visita, de fato, uma empresa que ele não quis identificar ligou e pediu para ele dar o preço que ele quisesse por algumas de suas raças mais raras de se encontrar, que possuem potencial para novas drogas.

Ele prefere descobrir os segredos futuros dos cogumelos por ele mesmo. Ele disse pra eles que não, obrigado.

Traduzido de: National Geographic

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