A Segunda Revolução Psicodélica, Parte 1 – O Fim do Ácido

Essa é a primeira parte de uma série de 6 artigos examinando o estado da cultura psicodélica contemporânea através das contribuições de seus principais arquitetos: Alexander Shulgin, Terence McKenna e Alex Grey.

Em novembro de 2000, uma operação do DEA apelidada de “Operação Coelho Branco” prendeu William Leonard Pickard e Clyde Apperson enquanto eles estavam movendo um suposto laboratório de produção de LSD de um silo de mísseis renovado em Wamego Kansas para uma localização não divulgada. Muitas questões permanecem sobre o caso e o envolvimento do informante do DEA, Todd Skinner[1], e o DEA agora afirma que nenhum LSD foi jamais produzido naquele silo. Mas ambas análise estatística e evidência anedótica de rua concordam com a alegação do DEA que essa apreensão resultou na queda de 95% do suprimento de LSD do mundo naquele tempo, fazendo parecer possível que aquele poderia realmente ser “O fim do LSD”.

Um ano depois, quase na mesma data (10 de Novembro de 2001), Ken Kesey, uma das grandes figuras dos experimentos com LSD, morreu. Com as cinzas de Timothy Leary já orbitando no espaço, e com a dissolução da banda Grateful Dead há mais de 6 anos após a morte de Jerry Garcia, poderia se deixar acreditar que a Revolução Psicodélica que tinha começado em algum tempo na década de 1960 – com a introdução social do LSD – tinha finalmente acabado. O mundo tinha mudado de muitas maneiras graças à descoberta dos psicodélicos. Mas como a maioria das revoluções, seus sonhos não foram totalmente completados, e seus heróis estavam virando uma lenda.[2]

Ironicamente, por mais interrompido e antiquado que o “Movimento Psicodélico” possa parecer no momento, as sementes da “Segunda Revolução Psicodélica” já foram plantadas mais de uma década atrás. Essas sementes floresceram no deserto da falta de LSD.

Esse foi um exemplo profundo de como a proibição inefetiva pode agir extinguindo o interesse em uma substância potente. A possibilidade de um mundo sem LSD inspirou uma geração jovem a procurar uma série de psicodélicos alternativos – alguns velhos, outros novos. No processo, eles redescobriram e regeneraram a experiência enteogênica original – o sabor místico do outro lado, as descobertas fora do espaço e temp0 – que o LSD forneceu para os pioneiros de 1960.

Agora, pouco mais de uma década depois, nós podemos presenciar a pesquisa psicodélica entrando vagarosamente mas com firmeza as universidades e laboratórios de pesquisa, graças a: visão e persistência de Rick Doblin e o MAPS[4]; a expansão global do meme Burning Man; o rápido crescimento do entrelaçamento do Movimento de Arte Visionária e a cultura transformadora de festivais de arte e música; Música Eletrônica, que é a primeira forma musical popular a venerar e popularizar os psicodélicos desde a década de 60; o nascimento de centenas senão milhares de websites (Erowid, DMT-Nexus, etc.) que ou promovem psicodélicos ou são diretamente influenciados por eles; o grande número de novos livros sobre psicodélicos nas prateleiras (ou pelo menos na Amazon); e a grande variedade de psicodélicos e enteógenos – tanto naturais quanto feitos pelo homem – que já esteve disponível para qualquer sociedade na história. Podemos dizer que a  revolução psicodélica/enteogênica na cultura ocidental está viva e bem. De fato, agora está entrando em uma renascença.

Então, como essa Segunda Revolução aconteceu? Quais são seus objetivos e ideais? Ela é diferente da Primeira Revolução Psicodélica de 1960, ou somente uma moda que está se re-inventando?

Como alguém que teve acidentalmente sua própria segunda revolução psicodélica em 2003 após fumar o raro enteógeno 5-MeO-DMT comprado ilegalmente da internet, e como o autor de um livro amplamente revisto sobre psicodélicos, e como um dos fundadores da FractalNation[5], um campo BurningMan conhecido por suas performances de música e galeria de arte visionária e palestras (que têm sido o ponto alto da cultura psicodélica no planeta nos últimos 3 anos.. mais sobre isso mais tarde), eu creio que estou em uma boa posição como alguém para examinar e ajudar a definir essa mudança nas atitudes de nossa sociedade a favor do potencial dos psicodélicos, assim como as esperanças, medos, sonhos e aspirações de nosso Movimento.

Fazendo isso, eu espero trazer uma consciência melhorada da oportunidade agora apresentada a nós, juntamente com o aviso que, embora sua popularidade aumente, a Segunda Revolução Psicodélica já está ameaçada. Eu também quero promover a possibilidade que os psicodélicos, que uma vez pareceram ser uma fórmula para a mudança social instantânea na década de 1960, podem ser salva-vidas para toda a sociedade que deseja emergir do caos que a mudança ambiental e o crescimento da população irão gerar na segunda metade do século 21.

Lucent Dossier apresentando com Tipper no Fractal Planet, Burning Man, 2013

Lucent Dossier apresentando com Tipper no Fractal Planet, Burning Man, 2013

O nascimento da Segunda Revolução Psicodélica começou uma década antes do Silo do Texas com a publicação de quatro livros bem diferentes nos anos 90: Espelhos Sagrados: A Arte Visionária de Alex Grey (1990); PiHKAL; Uma História de Amor À Química, por Alexander (Sasha) e Ann Shulgin (1991); e O Retorno à Cultura Arcaica e O Alimento dos Deuses (1992) por Terence Mckenna. Esses livros iriam providenciar a fundação filosófica para esse novo movimento psicodélico. Esse movimento foi em grande parte criado pela popularização de uma nova forma de música eletrônica sem paradas que estava se infiltrando nas festas de lua cheia em Goa, India. Nos anos 90, essa música começou a se espalhar para clubes e locais remotos e distantes ao redor do mundo.[6] Um fator importante foi a popularização da internet, que pela primeira vez permitiu a proliferação da cultura psicodélica sem medos de censura ou repercussão.

Para recapitular, os cinco desenvolvimentos culturais que distinguem a Segunda Revolução Psicodélica da revolução de rock e LSD de 1960 são:

  1. A introdução de um número variado de componentes psicodélicos e análogos, especialmente feniletilaminas da família do 2-C como o 2-CB, 2C-I, e 2C-E.
  2. A redescoberta de plantas enteógenas sagradas, especialmente a ayahuasca, e a publicação de métodos simples para extrair DMT de fontes vegetais.
  3. O nascimento da arte visionária (que é com frequência uma forma deliberadamente sagrada da arte psicodélica), e sua integração de duas décadas nos festivais de cultura contemporâneos (mais notavelmente no Burning Man nos EUA e BOOM! em Portugal).
  4. O crescimento da música trance-psicodélica que integrou cantos sagrados de várias culturas com batidas house ácidas sem paradas.
  5. A popularização da internet, que permitiu a disseminação rápida da cultura psicodélica.

Todos que experimentaram o crescimento mundial dos festivais de cultura transformadora através dos últimos 10 anos, ou tropeçaram na seção “Do Lab’s” do Coachella (um dos últimos festivais bons de ‘rock’), participou de uma das conferências do MAPS na California, ou o Fórum Psicodélico Mundial em Basel, Suíça, ou até mesmo navegou pela internet e descobriu sites de informações psicodélicas como o Erowid e o DMT-Nexus, irá facilmente reconhecer a influência e prevalência de alguns, senão todos novos desenvolvimentos na cultura psicodélica. Entretanto, durante os dias finais do século 20, e no final da Primeira Era Psicodélica se preferir, nenhum desses fatores era popular ou conhecidos comumente. E mesmo que seja de algum modo irrelevante classificar a importância das várias diferentes contribuições dos três principais arquitetos dessa nova era psicodélica – Alex Grey, Terence McKenna, e Alexander ‘Sasha’ Shulgin – eu creio que a maioria dos historiadores e observadores educados concordarão que a contribuição de Sasha – a publicação de PiHKAL e logo após TiHKAL – foi inegavelmente o primeiro ato essencial e ao mesmo tempo bravo.

Essa é a primeira parte de uma série de 5 artigos. Para ler a segunda parte, clique aqui.

NOTAS

[1] Ambos Pickard e Skinner – o ocupante do silo e alegadamente o parceiro de Pickard – tinham a fama de ter inúmeros laços com a CIA e o DEA. Pickard aparentemente teve o final errado desse acordo, recebendo prisão perpétua dupla pela alegada fabricação de 10 gramas de “uma mistura contendo dietilamida do ácido lisérgico”. Apperson recebeu uma sentença de 30 anos, enquanto Skinner saiu livre, para ser preso logo após com uma sentença de 90 anos por sequestro e assalto. Enquanto todas as fontes envolvidas contam histórias muito diferentes do evento, não vale nada que o DEA exagerou demasiadamente a quantidade de LSD encontrada (90 kg de LSD puro, enquanto só foram encontrados 7 quilos de precursor) e nunca achou nenhuma trilha de dinheiro significativa que sugerisse que Pickard fabricou a quantidade de LSD que Skinner afirmou. Pickard, para o registro, afirmou que foi uma vítima das fantasias elaboradas de Skinner.

[1] http://thislandpress.com/gordon-todd-skinner/

[2] Albert Hofmann, o descobridor do LSD, ironicamente viveu mais que todos. Ele morreu em 2008 com a idade marcante de 102 anos.

[3] Esses pioneiros utilizaram LSD em dosagens muito maiores do que as comumente utilizadas na comunidade de música eletrônica. Hoje, uma dose de LSD fica, em média, entre 75-100µg, enquanto uma dose simples de LSD em 1966 era em torno de 400µg. Muitos iniciantes eram encorajados a tomar uma dosagem dupla se eles quisessem experimentar a “luz branca”!

[4] MAPS; Associação Multidisciplinar das Ciências Psicodélicas.

[5] Fractal Planet em 2013.

[6] A primeira festa “Goa-Trance” em Londres foi em 1990. O Burning Man se mudou de Baker Beach, São Francisco, para Black Rock Desert em 1991; haviam 250 participantes.

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